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HOMILIA DO DOMINGO 04/06/2017, FESTA DE PENTECOSTES

por: padre Pablo Neves, pároco da Igreja Sirian Ortodoxa Santo Efrém, em São Luís – MA

(+) Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, um só Deus Verdadeiro.

Que a Graça e a Paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo esteja com todos vocês.

Prezadas irmãs e irmãos em Cristo, o Senhor mais uma vez nos permitiu estar reunidos diante de Seu altar, de onde emanam as Graças e as Bênçãos necessárias para nossa salvação, pois sobre Ele se faz presente verdadeiramente o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, o qual professamos sendo um só com Pai e o Espírito Santo e que, por Amor, se deu na cruz para remir nossos pecados.

Queridos filhos e filhas espirituais,

Hoje a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia celebra a festa de Pentecostes, a descida do Espírito Santo sobre a Igreja, que repleta da Graça de Deus, anuncia a Boa Nova da Salvação a todos.

O Espírito Santo trouxe aquele entendimento que Nosso Senhor Jesus Cristo havia prometido, como lemos no Evangelho de hoje, que diz: “Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito”. O Espírito Santo então abriu completamente o entendimento da Igreja para sua missão, que encontramos no Evangelho de São Mateus 22, 37-39, que é cumprir os mandamentos do Senhor de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. E como a Igreja faz isso? Anunciando o Evangelho, a Boa Nova, O Céu, e faz isso através não somente da palavra anunciada em termos “humanos” com nossa boca, como anunciamos tantas outras coisas mundanas, mas vivida pela Santa Igreja de Deus através dos Sacramentos, da Caridade e do Testemunho cristão em tudo.

Faço questão de recordar um fato aqui: nos Atos dos Apóstolos, encontramos desde o primeiro capítulo os discípulos reunidos com a assembleia, ou seja, a Igreja de Deus, que contava com cerca de 120 pessoas, mas São Lucas (que escreveu os Atos dos Apóstolos) faz questão de destacar que a Sempre Virgem Maria Mãe de Deus estava entre eles (Atos 1, 14). Veja que, desde a Anunciação (Lucas 1, 26-37), passando pelo primeiro milagre (João 2, 1-11), pela Crucificação (João 19, 26-27) e até aqui no Pentecostes, a Sagrada Escritura faz questão de deixar para nós uma verdade: É Deus que quer Maria junto a Igreja. Alguns gostam de chamar o Pentecostes de “a inauguração da Igreja” e, se utilizarmos esse termo, podemos (com o perdão dos termos) dizer que a Santíssima Virgem foi colocada pelo próprio Deus em tudo, do planejamento à inauguração. Pergunto-vos: seremos nós a tirar a Santíssima Virgem Maria de nosso “ser Igreja”, deixando de proclamá-la para sempre como Bem Aventurada (Lucas 1, 48)?

Bem, fiz questão de frisar isso porque, muitos de nós somos levados a crer que esse “ser Igreja” é algo que está ligado a uma opção particular do que “crer ou não crer”. Deixe-me explicar: Por seu batismo, você e eu temos o dever de ser Igreja em tudo, e não só naquilo que convém ou só no que cabe em sua cabeça. Aliás, bem falou Nosso Senhor ao dizer em São Lucas 9, 62 que “”aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus“. Mas o que seria esse “olhar para trás”?

Olhar para trás é colocar as suas “verdades” acima da Verdade de Deus. Quando digo isso, quero dizer que nós nos fechamos para que o Espírito Santo haja em nós, permitindo que o mundo seja um obstáculo para o Céu. Quando falo de “mundo”, não quero nem chegar aos estereótipos religiosos pregados ao vento por muitos. Não, não falo de “prostituição”, “drogas” ou coisas do tipo. É claro que essas coisas são ruins e compõem o que chamamos de “males do mundo”, mas muitos de nós não nos sentidos atingidos por isso, porque simplesmente acreditamos que essas situações não nos pertencem, ou seja, dizemos pra nós mesmos “eu não faço isso, logo não sou do mundo”.

Filhos queridos, em nosso caminho nem sempre é o galho que esbarra em nossos rostos que nos machucará, mas é o toco escondido entre o mato que nos fará tropeçar. Muitas vezes é nas pequenas coisas que nossa vida se fecha para que o Espírito Santo não nos governe plenamente. O medo, a preguiça, a falta de tempo, o orgulho, o preconceito, a inveja, enfim, são essas coisas cotidianas que transpassam nossas vidas (de todos nós!) que nos fazem ficar longe do Espírito Santo.

Deus não nos deu muito. Deus nos deu tudo!

Nós devemos deixar nossa vida ser conduzida pelo Espírito Santo, pois Cristo tudo venceu em sua Cruz Redentora. Aquilo que o mundo nos apresenta como obstáculo, nós devemos, cheios do Espírito Santo, ver como degraus para o céu.

Vejamos o exemplo do santo apóstolo Pedro, que antes, assim como os demais, tardava a entender simples parábolas do Senhor, mas agora, cheio do Espírito Santo, anunciava: “…recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos 2: 38) e assim foi instrumento de Deus para que de uma só vez cerca de 3 mil pessoas se convertessem (Atos, 2: 41). Perseverem no Amor de Deus e no testemunho cristão, e nada vos será impossível, pois o Espírito Santo habita em vossas vidas.

Filhos, hoje também encerra-se a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, um evento anual organizado pelo chamado “movimento ecumênico”, que busca promover reflexões e ações em prol da unidade cristã. Nesses dois mil anos de cristianismo, muitos homens e mulheres envergonharam o Evangelho, sendo semente de discórdia e divisão. Hoje, nascemos em meio a uma cristandade dividida, como se fosse possível desmembrar o Corpo de Cristo. Mas a pergunta que vos faço é: o que faremos diante disso?

Bastará dizer que quem é diferente não existe? Ou ofender aquela ou aquela que crê de forma diferente? Será cristão, em nome da defesa da fé, ignorar ou ofender alguém?

Nós sabemos que as diferenças entre as diversas comunidades cristãs são muitas, e que abraços e apertos de mão não as resolverão. Mas discordar do outro não me dá o direito de ser um “agente da discórdia”. Ainda que não possamos comungar em tudo, numa coisa por Cristo Nosso Senhor e Salvador somos obrigados: a respeitar. Se nós, Cristãos, que carregamos por nosso batismo a marca do Amor maior de Deus pela humanidade não soubermos respeitar o outro, caberá nossa vida na Igreja, o Corpo de Cristo, Aquele que só amou?

Não é fácil ser um agente de paz, e nem sempre vossos corações estarão dispostos, mas mesmo a falta de reciprocidade não nos dá direito de “atirar pérolas aos porcos” (Mateus 7: 6). Se um dia fizemos um compromisso com Deus, de sermos seguidores e imitadores de Seu Filho Unigênito, jamais então fará parte de nossas opções abandonar o barco da humildade, do Amor, do serviço e da promoção da paz.

Por isso, ainda que o movimento ecumênico muitas vezes dê a entender que seus participantes creem que “qualquer coisa é a mesma coisa”, relativizando aquilo que creem como Verdade de Fé, nós da Igreja Sirian Ortodoxa devemos ter em mente que nosso compromisso não é com a má interpretação ou exagero de ninguém, mas com o seguimento de Jesus Cristo, aquele que “a soberania repousa sobre seus ombros, e ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz.” (Isaías 9: 5).

Nesta festa de Pentecostes, cheios do Espírito Santo, somos chamados à reconciliação, com Deus, com nós mesmos e com o outro. Somos chamados a assumir os dons que o Espírito Santo derrama sobre nós, anunciando Cristo com nosso testemunho em tudo e com todos.

Que o Espírito Santo de Deus derrame sobre vós seus dons, fazendo de vossas vidas como o barro nas mãos do oleiro (Eclesiástico 33: 13), nos moldando e nos dispondo sempre ao Amor.

HOMILIA DO DOMINGO 28/05/2017, ANTERIOR A FESTA DE PENTECOSTES

(+) Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, um só Deus Verdadeiro.

Que a Graça e a Paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo esteja com todos vocês.

Prezadas irmãs e irmãos em Cristo, o Senhor mais uma vez nos permitiu estar reunidos diante de Seu altar, de onde emanam as Graças e as Bênçãos necessárias para nossa salvação, pois sobre Ele se faz presente verdadeiramente o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, o qual professamos sendo um só com Pai e o Espírito Santo e que, por Amor, se deu na cruz para remir nossos pecados.

Queridos filhos e filhas espirituais,

Neste santo dia do Senhor que antecede a Festa de Pentecostes, gostaria de refletir sobre a vocação de um santo que, durante essa semana, precisamente no próximo dia 01 de junho, será comemorado em nosso calendário: Mor Shemhun dzaite ou, numa tradução livre, são Simão dos azeites. Evidentemente, muitos de vocês nunca ouviram falar deste santo homem, que recebeu um nome tão curioso, mas estou certo que seu exemplo e testemunho cristão os fará refletir de maneira intensa sobre nossa caminhada rumo ao céu.

São Simão nasceu em Habsnan, no século VII, região que hoje pertence a Turquia. No ano 700 foi sagrado bispo de Harran, tendo já servido por muitos anos no Mosteiro de São Gabriel, em Tur Abdin. Foi responsável pela edificação de muitas igrejas, mosteiro e escolas, mas seu nome ficou marcado pelo plantio de 12 mil oliveiras que tinham como objetivo iluminar os mosteiros e igrejas da região, além das casas dos fiéis. Por isso é chamado de são Simão dos Azeites.

É interessante que, como bispo, são Simão tenha se preocupado no fornecimento de algo tão elementar. Muitas vezes, por nos considerarmos senhores de nossas vidas, deixamos de lado o que apelidamos de “pequenas coisas”, por nos considerarmos importantes demais para lidar com aquilo, e acabamos delegando ou terceirizando essas ditas “pequenas coisas” a outros ou, até pior, simplesmente deixamos de cultivá-las.

O fato é que, ao escolher cultivar algo tão básico, são Simão conseguiu garantir ao povo algo com o qual todas as outras coisa seriam mais difíceis (ou até impossíveis) caso esta não existisse: a luz. Em todas as igrejas, casas e mosteiros, a luz que irradiava sobre as atividades cotidianas de cada pessoa as fazia lembrar de seu bispo e, mesmo após sua alta celestial, o azeite oriundo daquelas oliveiras ainda inspirava memórias e histórias de um bispo que, mais do que plantar oliveiras, plantou sementes de luz.

Eis porque o exemplo de são Simão dos Azeites é tão interessante: nossa vida nunca pode deixar de ser um terreno fértil para o plantio daquilo que será luz para os outros. O Semeador, Jesus Cristo, “Luz da Luz”, com afirmamos no credo, é que faz de nossas vidas esse terreno fértil, do qual sairá o azeite que fará iluminar a vida de nosso próximo. É urgente então que deixemos nossos corações abertos para que Deus haja e cultive o melhor em nós.

É claro que, nas grandes coisas, nossas vidas podem ser iluminadas. Mas, normalmente, as grandes coisas são temporárias. As pequenas coisas, as coisas do dia a dia, da rotina, que nos seguem a vida toda, essas sim precisam de nossa atenção. Como é triste não receber um simples “bom dia” de um colega de trabalho, ou um filho não dizer ou ouvir um “eu te amo” de seus pais diariamente. Como é prejudicial a falta de uma oração antes das refeições em família, ou de um sinal da cruz ao passar diante de uma Igreja. Se os casais soubessem o quanto perdem ao deixar de dizer aos seus cônjuges o quanto os amam ou um simples “como você está bonito ou bonita hoje”, e como nós nos prejudicamos ao deixar de olhar nos olhos dos outros e contar uma boa história para quem amamos, ao invés de ficarmos cada um de olho em nossos celulares.

Muitos cristãos são displicentes quanto ao uso de suas palavras, não se importando em falar palavrões, mas sentindo vergonha de dizer o quanto alguém é importante em suas vidas. Muitos de nós choramos diante de telas de cinema e televisão, mas nos apressamos em fechar as janelas de nossos carros para alguém que nos pede ajuda no semáforo. Passamos horas de pé para assistir um show de um “ídolo”, mas reclamamos de ficamos alguns minutos de pé diante da Eucaristia, o milagre de Deus que se realiza todos os domingos na Igreja.

Filhos e filhas, pergunto a vocês: o que estamos cultivando? Qual luz surgirá de nossas ações?

Que são Simão dos Azeites nos inspire a cultivar aquilo que, por nosso batismo, fomos regados ao receber a remissão de nossos pecados pelo sacrifício da Cruz de Cristo. Sejamos semeadores de luz!

Que pela intercessão de são Simão dos Azeites, as bênçãos recebidas nessa Celebração Eucarística possam estender-se sobre suas famílias, seus trabalhos, seus amigos e colegas, planos e ações concretas, sendo vocês testemunhas de Deus em plena comunhão com Cristo e cheias do Espírito Santo.

 

HOMILIA DO DOMINGO 06/11/2016, 7º ANTERIOR AO NATAL – RENOVAÇÃO DA IGREJA (EVANGELHO DE SÃO LUCAS 9, 18-25)

por: padre Pablo Neves, pároco da Comunidade Santo Efrém, da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia – São Luís – MA

(+) Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, um só Deus Verdadeiro.

Que a Graça e a Paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo esteja com todos vocês.

Prezadas irmãs e irmãos em Cristo, o Senhor mais uma vez nos permitiu estarmos reunidos diante de Seu altar, de onde emanam as Graças e as Bênçãos necessárias para nossa salvação, pois sobre Ele se faz presente verdadeiramente o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, o qual professamos sendo um só com Pai e o Espírito Santo e que, por Amor, se deu na cruz para remir nossos pecados.

Queridos filhos e filhas espirituais,

Estamos às vésperas de uma importante data para nosso calendário religioso, carinhosamente chamada de “natal”, por nos recordar o nascimento de Nosso Senhor, o Deus Eterno, que se encarnou para a salvação da humanidade. O pai revestiu-se de humanidade, para que nós retomássemos nosso lugar de origem, o Paraíso, o qual um dia perdemos por termos nos afastado de Deus. O grande santo Atanásio, patriarca de nossa igreja irmã de Alexandria e grande defensor da fé ortodoxa, não hesitou afirmar que “Deus se tornou homem para que pudéssemos nos tornar deuses”, querendo expressar a vontade de Deus em nos tornar novamente habitantes do Céu e em plena comunhão com o Senhor por toda a eternidade.

Nesta semana, recordamos também outra figura ímpar para a Igreja Ortodoxa Siríaca, o grande Patriarca Miguel, também chamado de São Miguel, o Grande ou na língua da Igreja “Mor Mikhayel Rabo”, que pastoreou a Igreja por 33 anos como Patriarca de Antioquia e Todo Oriente, sendo o 79º Sucessor de Pedro da Cátedra de Antioquia. São Miguel foi um grande intelectual e um homem de profunda oração, do qual inúmeros estudiosos da Igreja não cansam de tecer elogios.

Filho de um sacerdote da tradicional família siríaca Qandasi, que gerou muitos frutos para a Igreja, São Miguel cresceu em meio ao doce aroma de Cristo, o que o conduziu para a vida religiosa como monge. No mosteiro de São Barsawmo, tornou-se abade por seu destaque como religioso e intelectual, o que também o fez ser escolhido pelo santo sínodo da Igreja como Patriarca. Tamanha era a capacidade de São Miguel que, durante o concílio latino chamado de “Terceiro Concílio de Latrão” no século XII, o papa de Roma Alexandre III o convidou para defender a Igreja contra os Albigenses (ou cátaros), o que São Miguel fez através de um tratado teológico. A obra de São Miguel é de tamanha importância que, ainda hoje, é utilizada pela NASA – agencia espacial americana – para estudar os eventos climáticos do primeiro milênio, narrados em seus escritos e considerados documentos históricos.

Curiosamente, apesar de toda sua capacidade indiscutível e aplaudida pelo mundo, o então monge Miguel, ao ser eleito Patriarca, fugiu e se escondeu, pois não considerava-se digno do cargo. Vemos que nenhuma das grandes virtudes e capacidade de Miguel alcançavam aquela que mais o distinguia: a humildade. Miguel não era apegado àquilo que o mundo poderia ver nele, pois sabia que tudo aquilo um dia passaria, como céus e terra passarão (São Mateus 24, 35). Miguel só era apegado àquilo que o Senhor Jesus foi enfático ao dizer que nunca passaria: Sua Palavra, que é eterna e vitoriosa.

Apesar de ter cedido ao apelo da Igreja e aceitado o cargo de Patriarca, São Miguel nunca perdeu o foco naquela que era a verdadeira razão de sua vida: o Céu, pelo qual Jesus entregou-se na Cruz para nos livrar do pecado e nos tornar dignos, por sua misericórdia. Também por isso ele foi um profundo escritor e defensor do Sacramento da Confissão, ajudando livrar a Igreja Ortodoxa Copta dos hereges que tentavam seduzir os religiosos e fiéis contra esse sacramento.

O testemunho de humildade de São Miguel, o Grande, nos revela o verdadeiro entendimento do Evangelho de hoje. Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo dirige-se aos discípulos e afirma que “quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem sacrificar a sua vida por amor de mim, salvá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder-se a si mesmo e se causa a sua própria ruína?” (São Lucas 9, 24-25). Jesus nos chama a trabalhar e dar testemunho, mas não esperar do mundo reconhecimento, glórias ou elogios. São Miguel é chamado de “o Grande”, porque, antes de tudo, se fez pequeno diante do Senhor, servindo a Igreja por toda sua vida de todo seu coração e intelecto. Somos todos convidados a proclamar junto com o apóstolo São Pedro, que Jesus é o “Cristo de Deus” (São Lucas 9, 20), Aquele por quem todas as coisas foram renovadas (Apocalipse 21, 5) e o único por quem devemos renegar a nós mesmos, tomar cada dia a nossa cruz e seguir (São Lucas 9, 23).

São Miguel o Grande, mesmo sendo um exemplar religioso, profícuo intelectual e grande Patriarca, nunca deixou-se seduzir pelos elogios do mundo, pois professava antes de tudo que todas as essas coisas eram, antes de tudo, cruzes carregadas pelos seguimento de Jesus Cristo. Tudo era pela Igreja, o corpo da única cabeça que é Cristo, Caminho, Verdade e Vida, o único pelo qual chegamos ao Pai (São João 14, 6).

Que pela intercessão de São Miguel, o Grande, as bênçãos recebidas nessa Celebração Eucarística possam estender-se por suas famílias, seu trabalho, seus amigos e colegas, planos e ações concretas, sendo vocês testemunhas de Deus em plena comunhão com Cristo e cheias do Espírito Santo.

HOMILIA DO DOMINGO 23/10/2016 DO CAPÍTULO 18 DO EVANGELHO DE SÃO LUCAS 18, 18-24

por: padre Pablo Neves, pároco da Comunidade Santo Efrém, da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia – São Luís – MA

(+) Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, um só Deus Verdadeiro.

Que a Graça e a Paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo esteja com todos vocês.

Caríssimos, seja sempre o Nome do Senhor Louvado, por nos permitir, em Sua misericórdia, celebrar o Santo Sacrifício Eucarístico nesta Igreja a quem o Senhor nos confiou a missão de testemunhar o Evangelho, Igreja esta que recebeu a Tradição de celebrar tal qual os primeiros cristãos em Jerusalém celebravam, ensinados por seu primeiro bispo, São Tiago Menor, irmão do Senhor, a quem comemoramos hoje em nosso calendário litúrgico.

Queridos filhos e filhas espirituais,

Hoje recordamos São Tiago Menor, chamado também de “irmão do Senhor”, um dos 12 discípulos de Cristo, conhecido também como São Tiago, o Justo, pelo respeito que tinha a seu tempo por sua vida ascética, reconhecida inclusive entre os judeus. São Tiago foi o primeiro bispo de Jerusalém, escolhidos entre os apóstolos para pastorear a primeira comunidade cristã, dada sua participação ímpar de liderança, biblicamente demonstrada na presidência do Concílio de Jerusalém, narrado no capítulo 15 dos Atos dos Apóstolos.

São Tiago é uma figura completamente contrastante daquela que encontramos no Evangelho de hoje. Segundo a Tradição, o apóstolo era um homem reto e religioso, de vida ascética, ou seja, de renúncia aos prazeres do corpo ou mesmo de algumas necessidades primárias. Historiadores cristãos como São Jerônimo (séc. IV) apresentam São Tiago como um homem que “não bebia vinho ou bebida alcoólica, não comia carne e nunca se barbeava ou se ungia com cremes ou se banhava […] e que “teve o privilégio de entrar no Santo dos Santos, pois ele de fato não vestia roupas de algodão, apenas de linho, e entrou sozinho no templo e orou tanto por seu povo que seus joelhos têm a fama de terem adquirido a aspereza dos de um camelo”.

São Tiago era, portanto, o que poderíamos chamar de “exemplo de religioso”, que vivia sob o que pregava, praticando de maneira irrestrita aquilo que acreditava. Já a figura que encontramos no Evangelho de hoje, num primeiro momento, poderia ser chamada também de “exemplo”, pois ao encontrar-se com Jesus, e questioná-lo sobre o que era necessário para obter a vida eterna, ele afirma ser um fiel cumpridor dos mandamentos desde sua mocidade. Qual então a diferença entre São Tiago e este homem? O que seria tão contrastante?

O Evangelista narra que este homem era rico e que, diante das palavras de Cristo “Ainda te falta uma coisa: vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me”, ele entristeceu-se e não seguiu Jesus, pois não estava disposto a abdicar de sua riqueza. Ainda que fosse um fiel seguidor dos mandamentos, este homem não era um vocacionado e, assim, não poderia ser um fiel seguidor de Cristo. Pois o que é vocação, se não a plena entrega ao seguimento de Jesus? Note que Cristo não escolhe seus discípulos e demais seguidores por suas vidas pregressas ou por suas virtudes externas. Ele não escolhe as pessoas por seu intelecto ou por suas qualidades físicas, sociais ou culturais. Jesus escolhe aqueles que o escolhem e, a partir disso, tornam-se novas criaturas. Escolher a Cristo é escolher o céu, a eternidade, a Palavra que não passa.

Quem diz seguir a Cristo, mas não está disposto a abdicar daquilo que lhe é mais precioso, não o segue verdadeiramente. Ser religioso é, antes de tudo, entregar-se completamente na compreensão de que “o céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (São Mateus 24, 35). Não é só nas atitudes e posturas externas que reside a nossa fé, pois estas são apenas reflexos de uma verdadeira transformação interna que ocorre em nossa alma ao encontrarmos com Jesus. Infelizmente, aquele homem, mesmo pessoalmente diante do Deus Encarnado, não compreendeu que suas riquezas de nada valiam, pois tudo é passageiro.

Mas não nos enganemos que a “riqueza” trazida aqui no Evangelho é apenas “material”. Somos ricos quando possuímos algo em abundancia, mesmo que isso não seja ouro, dinheiro ou propriedades. Há quem seja rico em rancor, com cofres cheios de mágoas não curadas, que não permitem o perdão. Há quem seja rico em ganância, queimando todos os dias de sua vida na busca por bens, poderes e prazeres com prazo de validade. Há quem seja rico em orgulho, não se permitindo nunca descer do alto de um castelo de areia que, cedo ou tarde ruirá. Nenhuma dessas riquezas, que de longe não são materiais, nos permitirão seguir a Cristo verdadeiramente. Nos empobreçamos de tudo isso, para que em nós haja espaço somente para Graça de Deus.

São Tiago, o Justo, não limitava-se e nem se deixava seduzir pelo respeito que tinha por conta de sua vida exemplar de religioso. Pelo contrário, doou-se completamente ao ensinamento de Jesus, pois era humilde e reconheceu que sua vida ascética só era verdadeira seja fosse, antes de tudo, nutrida pelo Evangelho. São Tiago abriu mão do respeito do mundo, assumindo a nascente Igreja cristã em Jerusalém, mesmo diante das injúrias daqueles que antes o elogiavam, mas que agora diziam quem ele era seguidor de um falso messias. São Tiago abriu mão de tudo, inclusive da própria vida neste mundo, especialmente em seu martírio, pois enquanto era apedrejado, rezava para que Deus perdoasse seus algozes, pois segundo ele, não sabiam o que faziam. São Tiago não foi um seguidor de Jesus por ser um seguidor exclusivamente de mandamentos, mas por ser, antes de tudo, um seguidor de Cristo em tudo.

Que pela intercessão de São Tiago, Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo vos abençoe hoje e sempre.

HOMILIA DO DOMINGO 02/10/2016 DO CAPÍTULO 13 DO EVANGELHO DE SÃO MARCOS

por: padre Pablo Neves, pároco da Comunidade Santo Efrém, da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia – São Luís – MA

(+) Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, um só Deus Verdadeiro.

Que a Graça e a Paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo esteja com todos vocês.

Primeiramente, agradeçamos a Deus por nos permitir oferecer nossas vidas, em comunhão fraterna, nesta Celebração Eucarística dominical, na qual receberemos o Santíssimo Corpo e Puríssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, um só Deus com o Pai e o Espírito Santo, que por Amor e misericórdia nos redimiu.

Queridos filhos e filhas espirituais,

Aprendi na Igreja que a palavra “diabo” significa “aquele que divide”. Apesar de ser um termo popularmente conhecido para se referir ao inimigo de Deus (e, portanto, nosso), é também um termo genérico que podemos entender em vários momentos de nossas vidas, como toda e qualquer coisa que nos conduz a divisão, no sentido negativo da palavra. Assim, um simples programa de televisão, independente do conteúdo, se me impede de dar a devida atenção à minha esposa, por exemplo, pode ser chamado então de “diabólico”, pois está (por conta da minha atitude, afinal o programa por si só não me obriga a assisti-lo) criando situações de distância do convívio matrimonial minimamente necessário para manutenção da felicidade do casal.

Veja que, ao contrário do que algumas comunidades ditas “cristãs” divulgam, o termo “diabólico” nesse exemplo, no sentido de manifestação, não se dá através de pessoas se contorcendo em gestos monstruosos e expressões faciais assustadoras, sugerindo uma possessão espiritual demoníaca. Pelo contrário, trata-se mesmo de uma consequência material de nossas escolhas, que de nadam possuem de “espiritual” ou “místico”, porém, que podem nos afetar profundamente naquilo que nossa espiritualidade nos conduz, nesse caso, o casamento, que professamos como sacramento e, portanto, sagrado.

Compreendemos então que “diabólico” pode ser sim uma ação de satanás, diante de nosso distanciamento de Deus e consequente enfraquecimento espiritual, bem como uma ação nossa mesma, puramente humana, que nos conduz à separação daquilo que tanto lutamos na vida para unir e manter unido.

Assim, fica claro o porquê de tantas vezes eu vos advertir de que é importantíssimo não subestimemos o mal, pois ele não virá travestido com “chifres e tridentes”, mas especialmente em situações que aos poucos vão minando nossas experiências de amor a Deus e ao próximo. Digo “minando” no sentido “bélico” da palavra mesmo, pois tais situações vão criando pontos de implosão em nossos caminhos de fé, destruindo aos poucos nossa relação com Deus, que fatalmente atingirão nossos valores e crenças.

Ora, o evangelista são Mateus, no capítulo 4, nos relata de como o diabo ousou tentar até mesmo o próprio Deus, na pessoa de Jesus Cristo, enquanto Nosso Senhor se encontrava no deserto. Imaginem então, diante de sua derrota pela Cruz Vitoriosa de Cristo, o que ele não é capaz de tentar àqueles que, pelo batismo, foram redimidos?

Irmãos, o Evangelho de hoje nos traz o alerta de Jesus: Vigiai! Muitas serão as dúvidas e os questionamentos que aos poucos “minarão” nossa fé, nos fazendo ficar longe de Deus e da Igreja, até o momento de não nos reconhecermos mais como homens e mulheres marcados pelo batismo e, pela misericórdia de Deus, cidadãos do Céu. Há quem pregue tão somente sinais externos, como guerras, fome, desastres naturais e doenças, mas sabemos que tais sinais, infelizmente, são parte da história humana, degradada pelo pecado. Guerras? Séculos antes da Encarnação de Cristo já banhavam o mundo de sangue. Desastres naturais? Isso ao nosso olhar, pois não passam muitas vezes da natural ação do tempo e da magnitude da Criação de Deus.

As maiores guerras ocorrerão dentro de nós, com nossas culpas e medos, nossas limitações e fraquezas, que se não forem “vigiadas”, poderão ser vencidas pelo orgulho, a ponto de preferirmos negar a existência do erro do que assumir que, simplesmente erramos, pois não somos perfeitos. Maior desastre serão nossas construções morais destruídas, nossos valores demolidos e nossas relações rasgadas por um mundo que insiste em aplaudir tudo que ridiculariza aqueles que tem fé, pois considera-se o “senhor do raciocínio, da lógica e do que é ou não é real”.

A ação diabólica, seja espiritual ou material, tem por objetivo destruir todas as raízes que sustentam nossa fé: a família, a amizade, a Igreja, o amor ao próximo e a esperança. E é através da fé que sustentaremos tudo aquilo que nos conduzirá à Eternidade em Deus: os sacramentos, a caridade, a oração, bem como a família, a amizade e a esperança. Por isso Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo afirma que, “o que vos digo, digo a todos: vigiai!”.

Que pela intercessão de nosso padroeiro santo Efrém e da Santíssimo Virgem, possamos sempre permanecer em plena comunhão com a Graça de Deus, que nos permite sermos um só em Cristo, Nosso Senhor e Salvador, a quem é devida toda honra e glória. Amém.